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O velho poço foi ignorado. Os ladrões nem o reconheceram como tal; apenas como um obstáculo a desviar. Merith não. Ela reparou nele, mas continuou a correr atrás do bando. Todos tinham um saco roubado às costas. Tiros soaram na floresta e Merith sentiu uma queimadura no braço.

– Lindinha, não queres ficar para trás para os entreter?

– Porco. – Respondeu ao sorriso pervertido que lhe lançou por cima do ombro.

– Calem-se! – Sussurrou outro em aviso. A figura que liderava o caminho virou bruscamente para a direita. Um monte de arbustos baixos esperava-os como planeado. Atiraram-se para o chão e encolheram-se a tempo de não serem vistos pelo grupo de polícias que os perseguiam. O grupo enganado seguiu em frente. O pervertido deu um sorrisinho.

– Estúpidos. – Disse, o que lhe valeu uma paulada na cabeça do líder do grupo. Esperaram em silêncio por mais algum tempo.

– Muito bem. O trabalho está feito. – Merith impediu-se de respirar de alívio. – É aqui que nos separamos. – Sem mais despedidas, o líder e o pervertido partiram e o terceiro elemento silencioso escolheu a direcção oposta, cada um com a sua parte do tesouro roubado. Merith, por sua vez, ficou quieta. Espetou as orelhas para escutar o bosque, depois levantou-se devagar. O dia estava no seu fim; o sol já se encaminhava para o horizonte com os seus tons de laranja e vermelho – tinham-se atrasado mais do que esperara. Prendeu a respiração, quando lhe pareceu ouvir gritos. Ao se aperceber que vinham suficientemente longe para não serem um perigo, expirou fundo. Começou a refazer o caminho.

Parou várias vezes para escutar quaisquer sons que a alertassem que estaria a ser perseguida. Agachava-se para usar a protecção da folhagem ou usava as árvores como um escudo até alcançar o poço. Era um daqueles poços feitos ainda em madeira. A madeira – toda ela, desde ao telhado triangular, às entraves que o sustinham e ao próprio muro – aparentava um aspecto quebradiço com musgo a enfeitar-lhe os veios, tão frágil que Merith juraria que reduzir-se-ia em pó só de tocar nele ao de leve. A manivela que faria o balde subir e descer não estava à vista.

A escuridão galgou. Em resposta, o coração acelerou e Merith teve de fazer um esforço para controlar a sua imaginação, que só se lembrava do pior. Aproximou-se do poço, tirou a faca do esconderijo da bota e fez um golpe na mão esquerda. O corpo encolheu-se com a súbita dor, recusando-se a abrir e a fechar a mão. Obrigando-se a mexer, agarrou a corda que pendia do poço com a mão ensanguentada e o poço reagiu.

O muro que o rodeava abriu-se, tábua a tábua, como se uma porta se tratasse. Merith aproximou-se e entrelaçou uma das pernas na corda antes de largar a segurança do chão. Sozinha, a corda começou a deslizar para baixo, lentamente. Fascinava-lhe ver a corda a sair do interior o tronco de madeira entalado entre as duas entraves. Objectos mágicos nunca foram bem-vindos na sociedade onde, em tempos, vivera, mas a curiosidade dela sentia-se sempre aguçada por eles.

Tinha encontrado aquela passagem por mero acaso. Os lábios cerraram-se com a memória. Recusava-se a pensar no assunto que a levou fugir de casa, ensanguentada. Bastava lembrar-se que, lá em cima, não tinha ninguém em quem confiasse. Tocou com os pés na pedra seca, o que produziu um suave eco pela gruta e murmurou um “obrigada” ao poço. A gruta estendia-se apenas numa única direcção, numa única saída. Virou-se para ela, com o saco roubado de volta ao ombro. A luz do pôr-do-sol ainda conseguia entrar, iluminando a gruta com um azul fantasmagórico, mas não tardaria a desaparecer. Merith avançou e em cada passo que deu deixou as memórias de lá de cima, entrando num mundo totalmente desconhecido, pronta para começar de novo.

Nota: A imagem usada para inspirar este texto pertence a Sylar113 e foi previamente publicada por ele no DevianArt.

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