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Mais um dia. Ela suspirou ao mesmo tempo que se esquivava do monte de corpos que faziam fila na reprografia para sair de lá. Voltou a suspirar só de pensar que tinha mais aquele monte de papéis para juntar à pilha que tinha para estudar. Saiu do edifício que ficava ao lado da entrada nas traseiras da Universidade a remoer sobre o trabalho que tinha, a remoer sobre a melhor maneira de proceder, a remoer que tinha de organizar melhor a sua agenda, quando a música começou.

Era atraente; dava a vontade de ficar quieta e ouvi-la. Olhou em redor, curiosa para saber qual era fonte da música, mas não soube identificá-la. Continuou a andar, em direcção ao refeitório, a rezar para que a refeição daquele dia fosse um pouco mais decente do que a do dia anterior com a música a marcar-lhe o passo. Sinceramente aquilo era comida sequer? Está bem que não podemos esperar comida de Chefe, mas aquele rolo de carne de ontem estava horrível! Só consegui comer as partes mais tostadas, porque por dentro… Não tenho dinheiro para passar a vida a almoçar no café. Estranhando o facto de a música não terminar, procurou mais uma vez em redor para identificar a fonte, mas sem sucesso. Apercebeu-se, sem saber muito bem como ou porquê, que a música estava prestes a terminar. Arrepiou-se toda. Um arrepio estranho, achou ela. Sentia-se como se estivesse em apuros. Ignorou o sentimento, achando uma idiotice. Está um frio danado. Agora sim, estamos no Inverno. Ela virou a esquina do pavilhão de Mecânica, ao mesmo tempo que a música acabava. E a realidade alterou-se. Os edifícios que compunham o Instituto desapareceram para dar lugar a um lugar completamente desconhecido. Tudo mudou. Até o tempo.

Chovia torrencialmente. O vento era de um frio cortante. Estava escuro como breu. Sem conseguir acreditar no que lhe tinha acabado de acontecer, ela deixou-se ficar no meio da rua deserta. O som da chuva a cair era ensurdecedor e não demorou até ficar ensopada. Onde estava ela? Como fora ali parar? Alguém lhe deu um encontrão forte, por pouco não a atirando ao chão. O sujeito murmurou um pedido de desculpas seco e afastou-se. O que era aquilo que ela estava a ouvir? Era cavalos? Mais ao longe viu um coche a desaparecer por entre a chuva cerrada. Oh, céus… Levou a mão ao bolso das calças de ganga, mas não sentiu o telemóvel lá. Com o coração a começar a bater depressa, lembrou-se que o tinha deixado dentro da mochila naquela manhã. Foi quando deu pela falta do peso da mochila nas costas e das folhas que tinha acabado de fotocopiar. Procurou pelas coisas, mas não as encontrou. Oh, meu Deus… O que vou fazer? Como vou ligar para casa?!

Ela andou um pouco, completamente indecisa sobre o que fazer, sobre o que pensar. Viu um jornal amachucado à entrada de um prédio, abrigado da chuva maior. Conseguia ver o cabeçalho da primeira página e precisou de ler três vezes, sob a luz difusa de um candeeiro que ali estava perto para conseguir acreditar no que lia. Estava escrito em inglês. London Fresh News, dizia o cabeçalho. London Fresh News, pensou ela. London? Londres?! Ela estava em Londres?! O quê?! Como era possível? Não podia ser! Nesse momento, a música recomeçou a tocar. Inexplicavelmente, o coração dela começou a bater ainda mais depressa. Medo. Sentia toneladas dele. Olhou em volta, receosa. Queria saber de onde vinha. Era o elo de ligação do que lhe estava a acontecer.

Sentiu as garras do pânico a quererem tomá-la. Não estava só, pressentia-o. Olhava para cima do ombro, mas não via nada nem ninguém. Passados alguns segundos, repetiu o gesto nervoso. A música, agora, nada tinha de atraente. Parecia que escondia um segredo obscuro por entre as notas estranhamente alegres.

Então, a música parou de novo, o que a deteve. Não se apercebeu de imediato que tinha parado à frente de um beco sem saída mergulhado na escuridão. De lá saiu uma figura. Foram os seus passos a chapinhar nas poças de água que o denunciaram. Ela não conseguiu vê-lo bem. Tinha uma gabardina comprida e negra. Um chapéu que o escondia da chuva, que o escondia dela. Ela ficou petrificada a olhar para ele com os olhos muito abertos. Estava aterrada, a tremer descontroladamente. Ainda abriu a boca para pedir ajuda, mas a voz falhou-lhe.

Um sorriso escarnecido mostrou os dentes brancos dele, matando-lhe a réstia de esperança que nascera naquele momento. Em pânico, com a respiração acelerada, com a adrenalina em alta, completamente em estado de fuga, virou-lhe as costas e largou-se a correr, atravessando para o outro lado da rua. Num piscar de olhos, a figura surgiu à frente dela com o mesmo sorriso nos lábios. Ele agarrou-a pelo pescoço com uma facilidade sobre-humana e levantou-a do chão, cortando-lhe parcialmente a respiração. Divertido, levantou uma caixinha de música ao nível dos olhos dela e abriu-a. Ironicamente, um boneco de um demónio caía sobre a sua vítima, girando à medida que a música tocava. A mesma música que ela estivera a seguir, indiferente ao pesadelo em que ela estava. A música atraiu-me para as mãos dele. Em pânico lutou, esbracejou, tentou dar pontapés e gemeu perante o olhar de predador divertido que ele continuava a ter. Num instante, ele partiu-lhe o pescoço. Riu-se deliciado ao ver os últimos movimentos dela, ao ver a vida a abandonar-lhe os olhos, e deixou a rua, desaparecendo na chuva intensa, desaparecendo na escuridão do beco de onde saíra e levando o corpo consigo. Levando as esperanças da rapariga ser encontrada pelos pais, pelos polícias, pelos amigos e conhecidos que procuravam freneticamente por ela há dois dias, consigo.

A Caixinha de Música

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