Etiquetas

, ,

Perguntava-se como é que a sua vida, que estava no auge, pôde dar tamanha reviravolta. Olhou em redor, para o seu iate luxuoso. Um luxo que sabia que não podia manter muito em breve. Estava no meio de nenhures, várias milhas da costa, no silêncio, na escuridão que o deixava em paz. A oscilação era suave, no entanto, já desequilibrado pela bebida tinha de ter cuidado e segurar-se para não cair.

Desesperado, começara a procurar a resposta na bebida e sabia que isso tornara o fundo do poço, que era agora a sua vida, permanente. Ela prometia-lhe a resposta se bebesse mais e ele fazia-lhe a vontade até que o fazia desmaiar, obrigando-o a enfrentar o começo de um novo dia, impedindo-o de beber, de se afogar até à morte com ela na boca para fugir ao que fizera.

Estivera a passos de fechar um negócio que garantiria uma vida abastada com a maior das facilidades e tivera uma mulher perfeita nos braços. O amor não fazia parte da sua vida, mas não significava que não gostasse da rapariga. Podia não tê-la amado, mas isso não o impediu de chorar como uma criança, quando a perdeu. Recordava-se perfeitamente do cheiro dela. Era doce e sempre mexera com ele. Fizera-o querer mais e mais, e ela estava sempre pronta para o satisfazer. Soubera perfeitamente que ela apenas via o seu dinheiro, mas isso não o impediu de observar vezes sem conta como o corpete branco lhe delineava o corpo cheio de curvas, deixando-o doido. Sentia a textura da sua pele perfeita na mão como se estivesse naquele momento a tocá-la. Conseguia cheirar o seu perfume, como fizera incontáveis vezes quando estivera ao lado dela.

Abriu a mão e viu-a manchada de sangue. Com o coração aos pulos, também acelerado pela bebida, foi a tropeçar até à mini casa de banho para se lavar. O sangue não saia. Aflito, esfregou a mão até lhe doer. Na sua loucura, viu a outra mão manchada de sangue também. Esfregou e voltou a esfregar até sentir que estava limpo. Exausto, cansado pelas horas de sono que perdera e pelo peso da bebida e com as mãos em carne viva deixou-se escorregar para o chão de azulejo branco e choramingou. Levou a garrafa à boca. Depois arrotou, com orgulho de bêbado.

Levantou-se do chão. A realidade distorcida era um alívio bem-vindo para a sua consciência pesada. Lentamente subiu os degraus que o levavam para o convés. Era magro, sempre o fora, e aquele toque de moreno que nunca desapareceu e que sempre deixara as miúdas encantadas, reforçava agora a figura de falhado, desistente, derrotado pela vida. Já não controlava o crescimento da barba e as suas mãos já não sabiam reconhecer qual era a sensação do toque da manicura. A camisa branca estava amarrotada e fora do alcance das calças do fato azul, um dos últimos que comprara. Já não tinha capacidade financeira para repetir a proeza.

Começou a soluçar e depois a resmungar por causa dos soluços. Resmungar fê-lo perder a concentração necessária para pôr um pé à frente do outro sem cair, fazendo-o cair. Estatelou-se no convés, magoando-se. O pequeno susto de ver rapidamente o chão a ir na sua direcção foi o suficiente para os soluços desaparecerem. Levou mais uma vez a garrafa à boca, deixando-se ficar no chão sentado, arrastando-se para o assento que lhe servia agora de apoio para as costas.

Morria de saudades por ela. Talvez estivera apaixonado este tempo todo, afinal. Mas o que é que isso importava agora? Ela estava morta. Era comida para os peixinhos e a culpa era toda dele. Perdera a calma e a faca aparecera nas suas mãos como que por magia.

Não quisera estar só, fazendo-a viajar consigo. Um sítio calmo ao pé do mar e uma cabana de madeira foram os requisitos dela, as condições dela. E ele aceitara, como aceitara sempre. Um dia levara-a naquele mesmo iate luxuoso para o mar decidido a dar-lhe um dia de sol esplêndido. Depois perdera o controlo sobre si, matando-a. Aconteceu tudo em apenas alguns segundos e levou horas a perceber realmente o que é que tinha acontecido e porquê durante esses segundos. Porquê?

O porquê já não interessava; o porquê já não era o porquê que ele achava que era o porquê daquela acção. O sangue escorrera pelo chão do convés como água fluida até pingar para o oceano. Recordou-se dos tubarões com um horror comprimido. Sim, estivera suficientemente longe da costa. Aqueles malditos animais sentiram o cheiro a sangue e apareceram minutos depois do primeiro pingo daquele vermelho líquido se dissolver nas águas salgadas. Lembrava-se bem das suas barbatanas dorsais a rasgar a superfície da água, enquanto nadavam em redor do iate. As águas profundas não tardaram a engolir o corpo branco dela com a beleza destruída por uma expressão de terror e incompreensão. O seu corpo mutilado pela faca tornou-se rapidamente num chamariz para os tubarões e com um fascínio mórbido viu-os a atirarem-se à refeição surpresa do dia.

Associava a má sorte que tivera desde então a ela. Era tudo culpa dela, sussurrava a bebida. Filha da mãe. Cabra. Mas depois começava a choramingar como um bebé sem saber ao certo porquê, mas por causa da teimosa bebida. Sentia a falta dela.

Levantou-se cambaleante e observou com olho de bêbado o luar reflectido no mar. Nesse momento uma pequena voz feminina fez-se conhecer pela neblina da bebida e ele virou-se para a fonte. Chateado por já não estar tudo em silêncio como ele queria, inclinou-se perigosamente para o mar à procura. Quando a voltou a ouvi-la, quis gritar de alegria. Era ela! Era ela! Regressara para ele e agora chamava-o! Cantava para ele! Oh, que belíssima voz. Começou a chamar por ela, completamente desesperado pelo seu toque, pelo seu perfume, pelo seu perdão. A realidade não o alcançava. Era suposto ela estar morta. Como podia estar a cantar para ele?

Viu-a dentro de água a sorrir para ele. Por gestos, dizia-lhe para ir ter com ela. Não parou para achar estranho que ela estivesse completamente debaixo de água, sem respirar. Que os seus olhos eram frios pela vingança inumana. Que o seu cabelo, outrora loiro, curto e encaracolado, era agora loiro, longo e mais liso do que dantes. Com uma felicidade de criança atirou-se para o mar e deixou-se afundar na sua direcção. Por fim, podia implorar pelo seu perdão e faria tudo o que ela quisesse para a fazer, manter feliz. Sem se aperceber, foi puxado lentamente para as profundezas. Quando o luar estava prestes a deixar de iluminar as águas salgadas, a rapariga sorriu e uma fileira de dentes aguçados brilhou na escuridão com o último raio de luar antes de mergulhar na escuridão. Ele continuou a sorrir mesmo depois de ver uma cauda escamosa e não duas pernas nela. Ele continuou a sorrir, enquanto o corpo implorava silenciosamente por ar. E a sorrir a sua alma continuou para onde o corpo moribundo não conseguia ir, seguindo para implorar o perdão que devia àquela que matara.

Anúncios