Ficar acordada. Foi a única exigência, a única condição que Eles impuseram. Pareceu-lhe estranho tal pedido, mas horas depois não interessava quão estranho era; apercebeu-se que estava em sérios apuros. As pálpebras tremeram com o esforço de as manter abertas. O cérebro parecia estar mergulhado numa névoa e nem o livro novo criava-lhe interesse. Sentiu-se como que num casulo; o corpo teimava em desligar-se, já de exaustão, cortando-lhe o acesso ao mundo exterior. Já pouco ou não lhe despertava o interesse para se manter activo. Será que eles podiam realmente saber se tinha sucumbido ao sono? Uma dor aguda brotou-lhe no peito, na zona do coração. Abriu a boca em surpresa, num grito silencioso, sem conseguir respirar. Aquilo acordou-lhe cérebro entorpecido e, por uns milagrosos minutos, a adrenalina manteve-a desperta. Esfregou a zona dorida e amaldiçoou-os mentalmente. Sempre mentalmente.

Eles tinham implantado sensores em toda a gente – sentia os malditos na linha da coluna, uns altos que podia sentir debaixo dos dedos. Pelos vistos, incluíram também um taser em miniatura. Que raio, podiam matá-la. Bastava esquecerem-se do dedo em cima do botão. Cruzou os braços e andou para a frente e para trás no escritório. O trabalho tinha ajudado a combater os primeiros sintomas de cansaço, mas a ideia esgotou-se há horas. Já não aguentava estar sentada na secretária. Lançou um olhar irado à papelada.

Sabia que tinha andado a passar dos limites, mas tinha sido tão cuidadosa! Ainda assim, a ficha pessoal acusou-a de menos 5 % de produtividade. Era o que Eles chamavam de risco amarelo. Fazia-nos passar por testes, onde fazíamos os possíveis e os impossíveis para provar que fora apenas um colapso temporário. Mas Eles não ficavam simplesmente quietos. Uma morena, que nunca soube o que era estar marcada pela acne, apareceu um dia para trabalhar sem o brilho de vida que habitualmente a acompanhava, apesar daquele inferno. Isso accionou alarmes na cabeça de toda a gente. Leia-se, de todos os humanos. Sabíamos que tinha sido chamada para os testes. Quando uma colega lhe perguntou o que se passava e se aproximou, deslumbrou por momentos uma cicatriz que lhe abria o peito ao meio.

Esfregou a cara com as mãos numa vã tentativa de afastar o sono; a adrenalina estava a esgotar-se. Aquela colega só podia ter passado por algo semelhante: foi submetida a um teste, não passou, tiraram-lhe o coração e implantaram chips que basicamente a tornaram num zombie domado; em alguém vivo, mas que não vivia. Não queria tornar-me numa coisa daquelas. Tinha de ficar acordada. A mente exigiu movimento e só então se apercebeu que tinha parado no meio da sala. Retomou as caminhadas para a frente e para trás com mais vigor. Tinha de haver uma maneira de sair daquela situação. O medo de ter uma perda de produtividade, por mais ínfima que fosse, aumentou a taxa de suicídio em 65% na última década entre os trabalhadores. Estava decidida a não fazer parte dessa estatística. Entre aquilo e o mundo para além do Muro, o desconhecido soava-lhe cada vez mais apelativo. Isso por si só, mostrava o quanto se estava a dominar pela loucura. Deu um pulo quando, ao levantar os olhos, viu três figuras assexuadas de branco alinhadas à sua frente. Tinham aberto a porta tão silenciosamente assim. A figura do meio destacou-se, dando um passo em frente.

– Tinha razão. – A voz seca e monótona surpreendeu-a, mas pior: fê-la arrepiar-se toda com a satisfação que ouviu naquelas palavras.

– Em relação ao quê? – Questionou ela de imediato. Semelhante ofensa fê-los sibilar.

– Chegámos à conclusão que tem o perfil de incitadora de problemas e desestabilizadora do sistema de trabalho. É uma ameaça.

Deu imediatamente um passo para trás e chocou com a esquina da mesa. Dor explodiu-lhe na anca.

– Mas eu não fiz nada!

– Ainda não, mas a probabilidade de desestabilizar e causar problemas é de 93,7 %.

– Como raios é que calcularam semelhante coisa?!

Não lhe responderam. Típico. Apercebeu-se que suspendia a respiração e aflitos, os pulmões exigiram ar. Mas quando tentou inspirar, nada aconteceu. Os pulmões não se expandiram. Não receberam ar. Levou a mão à garganta e levantou o olhar para as três figuras, que a fixavam com uns horríveis olhos brancos. A dor no peito explodiu. Desesperada, fez a única coisa que lhe passou pela cabeça. Cambaleou para a parede por detrás da secretária e accionou o sistema anti-incêndio. Os jactos de água foram inesperados e desconcentraram-Nos. Pôde respirar golpadas de ar que magoaram ainda mais os seus pulmões doridos. Apercebeu-se que as figuras gritavam de dor e agarravam-se à cara. Registando o estranho facto, passou por eles – conseguiu impedir que um d’Eles a agarrasse, batendo com força o braço estendido – e saiu do escritório. Ao fundo do corredor, outros trabalhadores seguiam apressados para a saída. A sirene era estridente e misturava-se com as pequenas corridas e com as vozes preocupadas. Endireitou-se. Como detestava aquele sítio. Tentou pôr uma faceta mais calma e escondeu-se no meio deles. Não era difícil, visualmente; tinham todos a mesma aborrecida farda cinzenta. Mas os sensores… incluíam um dispositivo de localização. Obrigou-se a caminhar devagar dali para a entrada principal, atravessou as enormes portas de vidro fosco e passou pelo portão de segurança. Espreitou por cima do ombro. O edifício rectangular era branco; de um branco tão estéril que o arvoredo do outro lado do muro era-me cada vez mais apelativo. Mas ninguém perseguia-a. Ainda.

Correu, abrandou para recuperar o fôlego, voltou a largar num sprint para ser obrigada a abrandar novamente por causa da falta de ar. As pernas doíam-me imenso do esforço, os pulmões nunca enchiam o suficiente, nem as vezes suficientes para dar-lhe oxigénio. O medo foi a força que a impulsionou, não querendo saber que não dormia à mais de vinte e quatro horas. A mente só girava em torno de um facto: podia ser localizada e sê-lo-ia muito em breve. Na verdade, estranhou não estar já morta.

A casa – uma pequena moradia, toda ela branca rodeada por um fio de relva perfeitamente aparado; oh como a detestava! – recebeu-a em silêncio. Quebrou-o com as inspirações desenfreadas para controlar a respiração. Foi directa à cozinha, mas olhou para o relógio do hall de relance. Tinha um avanço de 20 minutos. Abriu um pequeno armário, tirou um copo, mas não o encheu com a água da torneira. Não – não iria cometer o erro de se deixar drogar. No armário logo abaixo e escondido por detrás de prateleiras de plásticos cheias de produtos de limpeza, estava um enorme sistema de filtragem, que o seu pai conseguiu roubar antes do controlo d’Eles se tornar simplesmente demasiado apertado. Entre goles ansiosos, limpou o suor da testa e inspirou algumas vezes para acalmar a respiração.

Saciada, foi até ao quarto; devagar, pois tinha as pernas feitas em gelatina. Foi ao roupeiro e na prateleira mesmo lá no alto, que alcançou com um banco que tinha sempre ali, tirou uma enorme caixa alta e rectangular. Pousou-a em cima da cama e tirou a mala de viagem que lá estava, também cinzenta. Despiu-se e atirou-se para o duche. Uma marca vermelha na coxa, onde batera com a mesa, doía-lhe ao toque. Vestiu uma farda azul, abençoando a mania d’Eles em nunca variar nada. Aquela farda pertencera à sua mãe, que morreu de um ataque cardíaco durante a transferência, que as separara à quase uma década atrás. A cremação exigira que o corpo fosse apresentado com a farda diária – a cinzenta – e nunca perguntaram pela farda azul. Os sensores é que foram, sempre, o único factor que não conseguira resolver; estando profundamente incorporados na coluna, queimá-los ou simplesmente retirá-los implicaria ficar paraplégica, se sobrevivesse à tentativa. A sorte dela é que tinha roubado a solução há dois dias.

Após inúmeras tentativas para conseguir descer ao nível da morgue sem levantar suspeitas, um relatório sobre as mortes executadas naquele mês foi-lhe entregue no escritório. O coração deu um doloroso salto ao reconhecer alguns dos nomes, incluindo um grande amigo que sussurrava ideias de revolta, luta e sobrevivência por entre as notas da música clássica. Surpreendida, constatou que incluíram no relatório a desculpa que procurava: tinha uma lista de itens catalogados como Risco de Segurança. Estes tinham de ser impreterivelmente destruídos e a sua destruição tinha de ser supervisionada para ser assegurada. E fora destacada precisamente para essa supervisão. Marcou-a para daí a dois dias e estudou como iria roubar um pequeno engenho mesmo por baixo das barbas electrónicas d’Eles. Esse estudo deve tê-la distraído suficiente para que a sua ficha pessoal alertasse a quebra de produtividade. Mas conseguiu o que queria roubar e levar para casa, antes de ser notificada para os testes.

Naquele momento, tinha o engenho nas mãos – um pequeno rectângulo de plástico negro e estreito. Fitou-o. Não sabia se ainda funcionava, ou se alguma vez funcionou sequer. Olhou para o relógio da mesa-de-cabeceira. Já tinham passado outros quinze minutos. O tempo escasseava. Com a ponta da unha, fez pressão num pequeno botãozinho e sentiu uma pequena vibração na palma da mão. Confiou que fosse o sinal de que funcionava. Foi buscar fita-cola a uma das gavetas da cómoda e prendeu-o na nuca. Olhou-se ao espelho; notava-se qualquer coisa. Raios. Pegou em dois elásticos e fez um rabo-de-cavalo. Parecia tudo normal.

O som de travões a chiar injectou-lhe novamente adrenalina no sistema. Foi até janela e viu uma série de carros negros – uns parados e outros ainda a parar – na estrada e em cima do passeio. Pessoas saíram dos carros, como formigas alertadas para uma presa fresca. Recuou ao vê-los, a Eles, ali. Se saísse de casa agora, seria vista! Pegou na mala de viagem. Havia um acesso secreto para o sótão no fundo do corredor. Com a ponta almofadada do cabo de aço, que sempre deixava encostado no canto, fez pressão no tecto. O alçapão deslizou para baixo chiando um pouco, revelando escadas de madeira. Subiu rapidamente as escadas – batiam freneticamente na porta agora – levando o cabo e mala consigo. Arrombaram a porta da entrada e o barulho escondeu o pequeno click que o sistema fez, quando voltou a fechar o alçapão. Estava agora escondida num recanto do sótão completamente às escuras, vedado por quatro paredes que não deixava uma pessoa pôr-se em pé. Não se mexeu. Ordens brotaram ríspidas não muito longe. Passos ecoaram e vibravam pela casa toda. O coração martelava-lhe no peito e conteve a respiração, quando Eles entraram no sótão.

– Senhor, a casa está vazia.

– Encontrem-na! – Sibilou um d’Eles. Ela quis chorar e chorou. Silenciosamente e na completa escuridão. Não quis saber se era impossível que a luz fosse detectada naquele esconderijo; simplesmente não sequer ia tentar o destino. O engenho tinha bloqueado a sua localização com sucesso. Mais lágrimas escorreram e o medo era tal que tinha medo de fungar e atrai-los com o barulho nojento. Encolheu-se; abraçou os joelhos e adormeceu, mesmo naquela posição desconfortável.

Não soube quanto tempo passou, mas acordou com os primeiros sinais de que abandonavam a casa. Esperou ainda mais até se aventurar a acender a pequena lanterna. Quando, por fim, iluminou o cimento que nunca chegou a ser pintado, uma mala no canto mais afastado chamou-lhe a atenção. Era uma mala de viagem com um aspecto velho e antigo. Era maior que a entrada do alçapão. Uma visível camada de pó acusou o tempo que lá estava, esquecido. Apreensiva, tirou as presilhas do sítio e fitou o seu conteúdo. Não se tinha esquecido dela. Apenas nunca quisera arriscar o desconhecido.

Sempre sonhara encontrar um canto naquele mundo que não fosse controlado por Eles, o mundo para Lá do Muro. Viu a ironia e torceu o nariz. Continuou a fitar o seu conteúdo. Procuravam-na. O risco de ser vista e apanhada era demasiado enorme. Tanto quanto sabia, a própria casa estava sobre vigilância redobrada. Podia até conseguir iludir toda a gente e ser capaz de chegar ao Muro, mas havia um exército a guardá-lo. Ainda não tinha conseguido arranjar uma maneira de o contornar! E agora era impossível fazê-lo. De tempos a tempos, ouvia-se relatos de trabalhadores desesperados, inclusive famílias inteiras, que tentavam a sua sorte sem qualquer sucesso. Na maior parte das vezes, nem eram sequer capazes de se aproximar do Muro. Pensou no efeito da água sobre Eles e como não poderia transmiti-lo a outros. Não pessoalmente, pelo menos. Por momentos, limitou-se a roer as unhas. Abriu a sua mala de viagem e tirou de lá um bloco de notas e uma caneta – o meio de comunicação mais seguro numa era de tecnologia. E contou a sua história.

Quando acabou, pegou na sua mala de viagem e levou-a para ao pé da outra mala, toda curvada e devagar para que os seus passos pesados não a denunciassem. Voltou a fitar o conteúdo da mala velha: um lance de escadas descia para o desconhecido. Revelava, degrau a degrau, uma parede feita de madeira e com quadros pendurados de pessoas com vestes nunca antes vistas por si. Conseguia ver uma porta lá em baixo, ao fundo, se apontasse a lanterna para lá. Nenhum som denunciava o que pudesse estar para lá da Porta. Era tão arriscado como decidir fugir para lá do Muro. Respirou fundo e deu o primeiro passo.

Desceu alguns degraus antes de pousar a sua mala de viagem. Esticou o braço e largou o bloco de notas no chão. Voltou a agarrar na mala e lentamente, enquanto descia, foi fechando a tampa da mala. Faltava apenas um pouco, quando se lembrou e tirou o engenho do seu esconderijo. Desligou-o e largou-o ao lado do bloco de notas. Não fechou a tampa da mala de imediato; fitou antes a escuridão do sótão e do seu mundo. Tinha o coração apertado no peito; a dúvida de partir, a dúvida de ficar, o sentimento de culpa por não dizer nada a ninguém e não levar mais ninguém consigo paralisavam-na onde estava. Quem a conhecia, não a perdoaria. Mas se tentasse, seria apanhada e eliminada. Se fosse bem sucedida, podia salvar vidas. Se falhasse, nem a sua vida conseguiria salvar. Baixou a cabeça. Mais lágrimas de medo e exaustão brotaram. Fungou, limpou o nariz à manga da farda e deixou o braço cair.

A tampa da mala fechou com um pequeno som seco, e, sozinha, colocou as presilhas no sítio.

Nota: A imagem usada – denominada como “Custom Suitcase Lining” – para inspirar este texto pertence a Spoonflower e foi previamente publicada neste site.

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