A sensação de voar era única. Entusiasmada, estiquei-me para cima e pus-me em bicos de pés. Nada. O meu coração pulsou, confuso. Voltei a tentar. Os meus pés não largaram o chão. Fiquei quieta, perturbada. Voltei a esticar-me para cima, até estiquei os braços. Nada.

Voar era o meu sinal da realidade. Afinal, quem é que consegue voar, certo?! Estou a falar na realidade, claro. Porque nos sonhos, eu consigo. Desde que vi aquele filme “A Origem” com Leonardo DiCaprio que li tudo o que encontrei sobre conseguir estar consciente nos sonhos. Nesse filme, o peão era o sinal de realidade de uma das personagens. Consegui que voar fosse o meu. Nos sonhos, acontece de tudo: o tempo pára, pode-se voar, fugir de um apocalipse de zombies… Coisas que não funcionam, que não é possível na nossa realidade. Esses são os sinais ideias – se vires um zombie atrás de ti é o sinal a dizer que estás a sonhar! Por isso, quando digo que o meu sinal não está a funcionar, na verdade está a dizer-me que estou na nossa realidade.

O lugar onde estava não se desvaneceu como é habitual, quando nos limitamos a testemunhar um sonho. O chão parecia dominado por uma trepadeira rasteira. Olhei com mais atenção. Não, nada de espinhos, graças a Deus, e fitei os meus pés descalços com alívio. Ali, estava rodeada de árvores altíssimas que cortavam parcialmente a luz do sol, permitindo apenas que os raios de luz lhes penetrassem na folhagem à vez. As diferentes tonalidades de verde esvoaçavam preguiçosamente, quando a brisa passava.

Olhei para um lado. Depois para o outro. Encolhi os ombros – qualquer direcção era boa. Voltei a fitar a trepadeira que pisava antes de dar o primeiro passo hesitante. As pequenas folhas fizeram-me brotar em arrepios e risinhos por causa das cócegas. Foi quando notei, mais à frente, que a erva estava subtilmente pisada. Nem sei como dei com o caminho, mas havia de facto um. Voltei a esticar-me para cima, mas continuei sem voar. Continuava naquela realidade.

Alinhando na aventura, segui o caminho. Quem é que passaria por ali tão frequentemente? Para onde me levaria? Porque é que este sonho não se revelava como tal? Ia jurar que sentia o calor dos raios de sol em contraste com a frescura da sombra, que saboreava o aroma fresco da terra e que mergulhava numa paz indescritível. Agarrei na minha capa para que não se prendesse nos arbustos – estes, sim, eram espinhosos. Não é que tivesse frio, mas o capuz dava-me uma sensação de mistério e magia dos contos de fadas tão agradável que me fazia sorrir e dar dois pezinhos de dança. Rodopiei contente e depois estaquei. Um gigantesco arco em pedra erguia-se confiante naquele mar de tons de verde. Devia ter uma altura de cinco a seis homens e era de uma grossura que não se deixava abraçar. A pedra, outrora branca, estava acinzentada e coberta de musgo em muitos sítios. A hera, que se agarrou a um dos pilares, pendia agora lá de cima como uma cortina improvisada. Olhei para a escadaria que levaria a passar aquele marco; havia uma clara passagem em que o musgo foi pisado e parcialmente removido com a passagem de inúmeros pés. Seguiu-o com a curiosidade espicaçada. Ia a meio da subida, quando pisei um bocado de musgo húmido e esbarrei. Não cai, mas fiquei com o coração aos pulos.

Os pássaros chilreavam animadamente sobre a minha cabeça e podia vê-los a esvoaçar de um sítio para o outro. Um tronco estalou algures e a folhagem voltou a cantar com a passagem da brisa. Quando parou, naqueles instantes de silêncio, ouvi um burburinho. Por mais que espetasse o ouvido, a chilreada dos pássaros não deixou-me ouvir do que se tratava, pelo que avancei. Subi os degraus que faltavam, apoiei-me num dos pilares – a pedra sob os meus dedos era áspera – e atravessei o arco. Não havia outra escadaria; a terra simplesmente descia até a um enorme pátio de pedra escura. Curiosa, continuei a seguir o caminho pisado que serpenteava até ao pátio. Havia chorões com troncos tão grossos que questionei-me sobre a sua idade. Eram altos e os seus ramos pendiam sobre todo aquele lugar. Parecia o sítio ideia para namorar.

Um ramo a partir-se muito perto fez-me girar nos calcanhares e apanhar um intruso a meio caminho do seu esconderijo. Notei de imediato que usava uma capa semelhante àquela que usava. Como o capuz mantinha-lhe a cara na escuridão, esperei que o meu capaz tivesse o mesmo efeito para não revelar o pavor que sentia. A figura – não conseguia perceber se era um homem ou uma mulher – deu um passo na minha direcção. Instintivamente, recuei dois passos. Durante algum tempo, nenhum de nós se mexeu. Então, mais figuras apareceram, rodeando-me. Todas com a mesma capa posta; todas com a cara escondida pelo capuz. O meu coração bateu ainda mais forte. Não sabia lutar, mas já tinha visto os mais velhos. Flecti os joelhos e levantei os punhos, olhando em todas as direcções para perceber de onde viria o ataque.

– Lá porque isto é um maldito sonho. – Disse eu. – Não quer dizer que me renda. – Notei o tremor da minha voz por baixo da determinação. Uma figura mais à direita avançou; a minha atenção focou-se imediatamente nele e o meu corpo ficou tenso. Levantou os braços muito lentamente e puxou o capaz para trás. Os nossos olhos fitaram-se e o olhar dele lembrou-me de alguém mais velho, alguém com autoridade. O mais surpreendente era o quão belo ele era. Assustei-me quando todas as outras figuras repetiram o gesto, revelando homens e mulheres louros com uma beleza que não denunciava idades.

– Não vamos fazer-te mal, criança. – Disse o que parecia ser mais velho. Mas ter-me chamado criança irritou-me.

– Não sou uma criança! – Sibilei e na minha mente imaginei-me como uma serpente pronta a atacar.

– Não foi a minha intenção ofender. – Disse prontamente. – Mas não há razão para nos temeres.

Os segundos passaram; ninguém avançou para fazer mal. O meu corpo, pouco a pouco, relaxou e a minha respiração abrandou. Os meus punhos começaram a descair. Então, o mais velho estendeu a mão convidativa. Nada nos seus olhos fez soar alarmes de aviso. Observei em redor. Todos esperavam a minha reacção. Endireitei-me lentamente e puxei o meu capuz para trás, revelando as minhas imperfeições na pele. Dei um passo em frente, na direcção dele. Ouvi alguns suspiros de alívio, vi sorrisos sinceros e o ambiente aligeirou-se de imediato. Nesse momento, uma dor estonteante percorreu-me o corpo e tombei. Senti as mãos de alguém a impedir que a minha cabeça batesse com força no chão. Fechei os olhos. Quando os voltei a abrir, fitei o chão do meu quarto.

 

Anúncios