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Era obrigado a estar ali. Os pais tinham insistido que seria uma boa experiência, que poderia ganhar algum dinheiro para as coisas que queria e que iria ter contacto com uma nova realidade. O rapaz moreno fungou com uma careta. Trabalhar no canil, grande coisa. Tinha que limpar as boxes e alimentar aqueles animais: cães pequenos, grandes, gordos, magros, progenitores e crias. Adorava-os tanto como limpar sanitas nojentas ao som de jazz. Mesmo assim, a melodia de latidos e ganidos em tons de tristeza e sofrimento inquietava-lhe o espírito. Curiosamente, era à hora de almoço que se queixavam mais. Imaginava-lhes estômagos vazios e os olhares famintos de atenção, e certificava-se que almoçava bem longe para não os ouvir.

Aquele dia não era diferente dos outros: um homem encurvado para a frente, como se carregasse aos ombros todas as mortes caninas que já levou a cabo, ia buscar os animais marcados para abater. Reconhecia-lhe o brilho da sede de sangue naqueles olhos negros e pequeninos numa expressão de macabra felicidade. O rapaz endireitou os ombros, parecendo maior a segurar a pá de retirar os dejectos. Tinha muito mais classe do que aquilo. As crias – ainda rechonchudas e de pêlo lustroso do recente abandono – eram religiosamente guardadas para as eventuais visitas. O rapaz apanhou um cachorro a observá-lo. Nele, viu-lhe uma tristeza sem fim. Adorava o sofrimento como um bom prato de favas. Era simplesmente repugnante. Até ele via que era mais simples matá-los a todos de uma vez só. O homem fez-lhe sinal. Encostou a dita pá, pousou o balde que acumulava moscas e restos de dejectos, e seguiu até à sala mais afastada possível da zona de entrada: a sala do abate.

Ali, não havia dinheiro para eutanásias. Era o bom e velho taco de basebol, uma piada de um desportista fanático e cruel que trabalhou ali em tempos. O homem corcunda estendeu-lhe o taco; o rapaz negou-o. Preferia manter o cão inteiro; limpar nacos de carne, cérebro e dentes não era a sua ideia para terminar um dia de trabalho. Aproximou-se do cão encolhido com o rabo entre as pernas e agarrou-lhe na cabeça. Era de raça média, estava magro e aterrorizado. O outro aproximou-se e segurou-lhe nas patas traseiras. O cheiro dele a suor e a cão impregnou pelo nariz a dentro do rapaz. Fez uma careta. Talvez devesse tirar o sofrimento aos dois, pensou.

Colocou uma mão por detrás da cabeça e outra no focinho. Num movimento confiante, rodou a cabeça e o pescoço fez um crack sonoro. O corpo felpudo tombou na mesa. Pelo canto do olho, viu a expressão de perplexidade e a pontada de medo na cara do homem corcunda. Como adorava aqueles animais.

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