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Para salvar a vida, ele tinha de matar. Era um facto que teimava em não se deixar assentar na mente dele. Não totalmente, pois salvar a sua vida era ponto assente. Mas seria capaz de pagar o preço?

O supermercado estava a abarrotar de gente; típico num sábado de manhã. Mas, naquela manhã, os bips das caixas registadoras, as conversas alheias, o choro de uma criança a fazer birra, o zunido eléctrico das arcas de refrigeração, as rodas dos carrinhos de compras a serem empurrados, o chop-chop de um talhante a arranjar a encomenda, todos aqueles sons eram ensurdecedores, como se estivesse numa discoteca ao rubro. Nunca se tinha apercebido de quão barulhento era aquele sítio.

Olhou para a lista e empurrou o carrinho até à secção do leite. Viu um homem com roupas largas e gastas, encurvado para a frente a olhar desolado para as inúmeras opções de café. A sua vida valeria a dele? Olhou para o lado; um homem de porte atlético estava na secção dos iogurtes. Ou talvez, a vida daquele? Como poderia saber quanto valeria a sua vida? Pelo ordenado? Talvez fosse melhor deixar o Corcunda de lado.

Toda uma secção era dedicada a todos os tipos de leite: soja, amêndoa, arroz, leite magro, meio gordo e gordo, para não falar da diversidade de marcas. Fez uma careta ao preço do leite de soja. Talvez a sua vida valesse a vida do gerente do supermercado. Enviaria uma carta a seguir, a exigir a redução do preço do leite ou alguém mais pagaria com a vida. Pensou durante dois segundos. Não. Seria tempo perdido. Aliás, só precisava de uma vida para resolver o seu problema.

Tirou o pacote de seis embalagens de leite, pôs no carrinho e voltou a consultar a lista de compras. Deitou um olhar rápido ao casal estrangeiro que parecia ser fã do vestuário havaiano. Seria capaz de impedir que um deles tivesse a oportunidade de viajar e sorrir daquela forma tão satisfeita para o parceiro? Desviou o olhar, incomodado com a simples hipótese.

Deu cada passo em direcção à nova secção de interesse numa lentidão propositada. Notou a força que precisava para empurrar o carrinho, como os músculos contraíam ligeiramente naquele movimento simples. Observou a vitrina onde inúmeras embalagens de carne estavam dispostas. Será que o problema se resolveria mais facilmente, se pensasse que a pessoa não passava de um animal? Pegou numa embalagem de bifes e analisou se estavam ainda em condições. E se for alguém que valesse menos que um animal, como um assassino? Ou um violador! Anuiu satisfeito e colocou a embalagem de carne no carrinho. A ideia começava a não lhe parecer tão horrível. Sorriu e acenou para uma pessoa conhecida em jeito de cumprimento.

Devaneios Cinznetos

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