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Ele nunca viu tantos sem-abrigo num só lugar. Pior; eram todos do tipo de sem-abrigo mais perigoso que existia: o endinheirado. Cheios de notas e moedas digitalizados em números num ecrã, passavam a vida a trabalhar, a socializar e a ensinar os outros a fazer o mesmo e a enriquecer de todas as formas justas e injustas, como se a própria essência da Vida se reduzisse a um mero pedaço de nada que podiam guardar com unhas e dentes. Eram do tipo de sem-abrigo que não via como o sol tornava o verde das folhas ainda mais vivo, que não se apercebia como um simples obrigado podia trazer o sorriso a alguém cansado, e que não sentia como era extraordinário criar fosse o que fosse pelo simples prazer de criar.

O coração começou a bater-lhe com força no peito. Engoliu em seco e sentiu-se cada vez mais gelado à medida que os segundos passavam e a probabilidade de darem com ele aumentava. Eles eram do pior tipo de sem-abrigo que podia existir: não sabiam o que era o amor, não reconheciam quão errados estavam e ainda tentavam convencer como era bela a vida assim. Uma mulher linda com um fato e saia de tons amarelos, que salientavam o castanho brilhante do cabelo ondulado, estacou e olhou para ele. Tinha um telemóvel ao ouvido e com a mão que segurava a pasta, apontou para ele. Os outros, ao verem-na, estacaram e viraram-se para ele. O homem praguejou e fugiu a correr dali para fora antes que desse por si devoto à ilusão do dinheiro.

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