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Para o suicida que está vivo à espera de morrer.

Outra vez com lágrimas nos olhos. Está a tornar-se demasiado frequente, não concordas? E estranho. Devias estar a roer-te de inveja. O que se passou aos dias em que te limitavas a fitar o vazio para dares atenção às vozes na tua cabeça? Sabias que há quem acredite que as vozinhas nas nossas cabeças vêm de anjos? É isso mesmo: tens um clube de anjos dentro da tua cabeça a massacrar-te como o diabo. Livra-te deles! Fica a saber que morrer é mais fácil do que parece.

Há este instinto estúpido que te impede de largar o corpo, mas quando o descartas, como que flutuas como um balão que está preso apenas por um fio. Depois, agarras numa tesoura e cortas esse fio. Juro-te. É fascinante. Para quê adiar? A única coisa que fizemos foi adiar! Atravessar a estrada sem olhar? Fumar à espera de ter cancro? Beber descontroladamente a ver se o fígado falhava? Céus! Passámos a vida a pôr a nossa decisão entre a vida e a morte nas mãos de terceiros! Quando tomei consciência disso, decidi logo ali: vou dar o último passo! E deixei que o comboio me atropelasse. Apenas lamento não ter-te levado comigo; ter-te deixado para trás como um soldado covarde que não regressa para socorrer um companheiro ferido.

Nunca pensei sentir-me tão vivo perante a possibilidade da verdadeira morte. Sei que adoras a vista da falésia. Estarei lá à tua espera, no fundo, por entre as rochas pontiagudas. Deixa essa inveja vir ao de cima. Ouvi dizer que as pessoas agem de forma impulsiva, quando são invejosas. Sê invejoso e manda-te do penhasco.

Cá te espero, companheiro.

Do suicida antes de morrer para viver.

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