Etiquetas

, , ,

Sobrevivo à mais de cinquenta anos e nunca vi tamanha felicidade. Tornou-se num sentimento tão palpável que apetecia engarrafá-lo para aguentarmos tempos difíceis, que estariam para chegar. Era de uma alegria contagiante ver os sorrisos em toda a gente. A água potável era um luxo e nós tivemos direito a ele. O administrador do nosso bairro observava-nos de peito inchado. Via mulheres a lavar loiça que seria usada apenas em ocasiões raras; crianças a brincar com o barro formado com a água que não se pôde salvar; e os homens a trabalhar a terra árida com novo fôlego e esperança no olhar.

Todos tínhamos direito a um banho. A sensação da água fresca a passar-nos por cima da pele seca e escura do sol era indescritível, quase como um pecado. Não usávamos champô, amaciador ou gel de banho, mas café moído. A água aparentemente suja seguia pela canalização rica em novos nutrientes para as plantações. Poder regar as plantas era uma necessidade luxuosa e, desta vez, nenhuma família seria posta de parte; todos tinham direito ao seu quinhão diário de ouro líquido. Até hoje.

Vi o meu neto a abrir a torneira. Escorreu apenas um pequeno fio de água. Depois gotejou. A seguir parou. A consciência do que significava aquele momento e tristeza que marcaram aquele rosto de seis anos foi de partir o coração. Ele baixou o copo e fitou a água que brilhava no fundo do copo. Ninguém se mexeu, excepto a irmãzinha sedenta que correu para ele. Tinha um sorriso nos lábios e um choro sem lágrimas no olhar ao entregar-lhe as últimas gotas de água daquele bairro. O silêncio abateu-se. A amargura instalou-se. Os sorrisos desapareceram. E estes velhos músculos do rosto que eu tinha doridos de tanto sorrir eram agora agridoces.

Anúncios