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“Toda a infelicidade dos homens provém da esperança.” E eis que uma personagem gritou: Essa frase está errada! E outra acrescentou ainda: Errada, errada, não está, se estivermos a falar da gramática. A primeira personagem, sentada no balcão do bar sossegado, virou-se para a segunda personagem: Mas quem é que quer saber da gramática? A segunda personagem pousou o copo de whisky, que estava já a meio caminho da boca, e olhou séria para a primeira personagem: O bom português, é claro! A primeira personagem fungou: Isso é uma indirecta? Tenho a comunicar-lhe que sou bom, mas muito bom a português! A segunda personagem encolheu os ombros e depois engoliu o whisky: Ninguém disse o contrário. A primeira personagem rangeu os dentes: Mas eu sei que aquela frase está errada! A segunda personagem anuiu: Mas gramaticalmente não. O outro lançou os braços ao ar: Mas quem quer saber da gramática?! São as perspectivas que criamos que nos causam infelicidade! Não a esperança! A esperança é o que nos dá forcas para continuar! É o que nos move! A segunda personagem encolheu os ombros outra vez: Não concordo. A esperança faz-nos sonhar com coisas que acabamos por nunca vir a ter. Irritado, a primeira personagem virou-se: E que culpa tem a esperança, se não mexes o rabo para ires atrás do que queres? A segunda personagem lançou-lhe um olhar insultado: E que culpa não tem a esperança, se há quem espera tudo e tem tudo? E julgas-me por querer o mesmo? A primeira personagem fez um gesto na direcção do outro: Nota-se que está a resultar… A segunda personagem levantou o punho de forma ameaçador: Vem cá dizer-me isso mais de perto… A primeira personagem sorriu ironicamente: Continuas com esperança, não é?

“Toda a infelicidade dos homens provém da esperança”, de Albert Camus

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