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Eu sou tu. Posso não falar ou mexer, mas eu sou tu. Sei o que sentes; sei o que pensas. Preciso de ti, tal como precisas de mim: eu para ser, tu para escrever. Choras. Choras para as palavras, nas palavras. Estás mesmo a pensar em entregar-lhe a carta? Compreenderá ele a dor das tuas palavras, a inclinação da tua letra resultante da pressa por saberes que as malas estão feitas e à porta, à tua espera?

Paraste de escrever. Não, querida. O que viste não foi uma ilusão. Eu sou tu, lembras-te? Dor assim não é provocada por ilusões. Desabafa, põe tudo em pratos limpos e deixa-o. Homem assim não te merece. Continuas a chorar. Isso incomoda-me. Também já não desejo ficar. Há demasiada dor. Como posso querer ser ele? Não! Não me deixes! Não deixei de sentir quando me largaste abruptamente em cima da carta! Nem depois de teres pegado nas malas e saído porta fora! Não me deixes para trás!

Este novo silêncio incomoda-me. Não me incomodava antes, mas agora incomoda-me. Há uma nova dor. Apercebo-me, atordoada, de algo mais na carta escrita. Vejo uma mancha de tinta que não existia antes. Fui partida. Por dentro e por fora, e agora, sem que te apercebas, junta-se a minha dor à tua. Não te culpo. A dor é demasiada, aquela que sentias. Já não quero ser-lhe útil. Ele que veja. Ele que veja bem como nos partiu às duas.

Escrito a 13-04-2010. Editado a 30-08-2016

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