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Acordei com alguém a bater na porta ao de leve. Por instantes, acreditei que tinhas regressado, que era nos meus braços que escolhias encontrar-te. Não abri os olhos de imediato. Queria que entrasses de mansinho e te enfiasses nos lençóis para me encheres de beijinhos e carícias, tal como fazias nos nossos tempos. Mas não ouvi passos a entrar ou a porta a fechar-se para sermos só nós.

Abri os olhos para ver a minha mãe. Falou sobre como ia sair e que só voltava para o almoço. Anui, dando-lhe a saber que a tinha ouvido.

Novamente sozinha, o meu coração magoado voltou a chorar de desilusão e angústia. Virei-me na cama. As lágrimas fluíram. Faziam-me cócegas na cana do nariz. Funguei alto e estiquei o braço para alcançar o pacote de lenços. Assoei-me, soluçando ao mesmo tempo. Desconfortável, sentei-me para mudar a almofada de posição de forma a não me encostar na fronha molhada. Depois… parei. Como que olhei para mim mesma. Tão triste. Tão desolada. E por alguém que tinha-me traído, que deitou fora uma relação de quatro anos pela janela fora. E pelo quê? Por um rabo de saias qualquer que conheceu no trabalho. Funguei insultada. Estupor. Canalha. Filho de uma grande Pereira!

Saltei da cama com a revolta a brotar-me no peito. Comecei por levar uma aspirina à boca para enterrar as dores de cabeça. Depois, marchei para a casa de banho. Olhei-me ao espelho. Fiz uma careta. Estava com tão mau aspecto. Não voltaria a perder-me, não assim, por quem me considerasse dispensável. Enfiei-me no duche. A água jorrou fria. Aguentei-me por teimosia. O choque obrigou o meu corpo a reagir e senti-me mais revigorada. Armada com um look causal e descontraído, comecei por abrir a janela do meu antigo quarto. Estava na altura de arejar a minha vida.

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