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Começou por observar a argola minúscula. Estava toscamente soldada ao pendente, pelo que pegou no alicate e facilmente torceu-a até se desprender. A seguir, foi o pendente. Entalou-o entre o indicador e o polegar da mão esquerda, e girou-o com a mão direita. Não encontrou quaisquer falhas e sentiu-se satisfeita.

O pendente era uma minúscula garrafa de vidro com uma minúscula rolha de cortiça. Não era maior do que a cabeça de um polegar. Abriu-o e substituiu o rolinho de papel, que vinha originalmente com ele, por um rectângulo de papel timbrado de cor branca com a ajuda de uma pinça. Num lado estava escrito as iniciais de um nome e, no outro, símbolos que  desenhara pessoalmente à mão. Faziam parte de um código que tinha vindo a desenvolver ao longo dos anos e era-lhe muito pessoal. Curiosamente, teve mais dificuldade em codificar aquele caso em particular e incluiu aceitar mudanças no seu próprio código para acrescentar o símbolo extra. O código final que sentiu ser o mais adequado foi o Mocho, Raposa e Trevo. O símbolo extra era uma Bala.

Foi um caso peculiar. Teve de agir de forma muito mais ponderada e, como uma coruja atenta, observara tudo, atenta a quaisquer detalhes que garantissem a captura da sua presa. Tornara-se na sombra do alvo. Não sabia dizer se alguém dera com a língua nos dentes ou se a ameaça de morte já não era novidade, mas o alvo estava paranóico com a sua própria segurança. Passava a vida a olhar constantemente por cima do ombro, sempre com os nervos à flor da pele e qualquer imprevisto punha-o aos gritos com os seguranças.

 Não foi difícil encontrar um suficientemente desagradado com o trabalho para ser manipulado. Como uma raposa matreira disfarçada de ovelha mimosa, criou o encontro “casual” perfeito. Ele saía de uma livraria, ela ia a entrar e chocaram um no outro. Fez-se de tola e preocupada, enquanto o ajudava a apanhar os livros que tinham caído. Vendo-lhe o ar de interesse, perguntou-lhe sobre um dos livros. Bastou um pouco de droga na bebida, que tomaram noites depois, para o deixar manso e algumas bebidas a mais para o deixar alegremente bêbado para disparar os pormenores que ela precisava.

O terceiro símbolo foi o mais difícil, porque mexia com o orgulho dela. A sua preparação não foi o suficiente para antever todas as camadas de segurança e foi apanhada despercebida com uma bala, quando entrava no quarto do alvo. O Estupor tinha mesmo armadilhado o próprio quarto. Claro, ela perdeu o elemento de surpresa. O alvo sentou-se na cama num pulo e agarrou na Glock que estava sobre a mesa-de-cabeceira. O Ignorante era paranóico pela segurança, mas não pelos pormenores. Carregou no gatilho imensas vezes, preenchendo o quarto com inúmeros cliques, até se aperceber que não tinha carregado a arma. A minha, por outro lado, estava e bastou-me uma bala no meio da testa.

Tinha sido triplamente protegida naquela noite de Lua Nova: a arma que não estava carregada, o tiro ter-lhe apanhado apenas o braço e ter havido uma disputa de gangs não muito longe dali. Meteu-se no meio da confusão e foi tratada como mais uma vítima casual que por ali passava, quando gangs rivais decidiram disparar a torto e a direito. Suspirou resignada. Não era hábito seu depender da sorte, mas tinha de admitir: foi a sorte que lhe salvou a pele naquela noite.

Satisfeita com o novo ex-pendente, levantou-se da secretária de madeira escura e encaminhou-se para uma vitrina. Tinha um formato hexagonal. Todo ele era vidro, excepto a estrutura metálica que o sustentava, incluindo as prateleiras. Em cada uma delas, havia pequenos cenários: diferentes fundos do mar, sereias e navios naufragados. Mas todos eles tinham uma coisa em comum. Todos tinham uma minúscula garrafa de vidro codificada para cada assassinato que executara. Abriu a vitrina e colocou a nova aquisição nas mãos de uma sereia, viradas para cima agora a oferecer as memórias de mais uma morte para quem fosse suficientemente inteligente paras as descodificar.

Riu-se. Como se houvesse semelhante alguém.

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