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Fui ao Infopédia saber que místico, como adjectivo, significa “relativo à mística, espiritual, devoto, contemplativo, misterioso e alegórico. É aquele que, através da contemplação espiritual, procura atingir a união directa com a divindade”, ou então é uma “pessoa que se afasta da vida mundana para se dedicar à vida contemplativa, espiritual”. É uma palavra que leva-nos a imaginar Merlin, bruxas, feitiços ou qualquer das artes divinatórias praticadas antiga e actualmente. Remete para uma área esotérica, onde os interessados mascaram a sua curiosidade e devoção com indiferença com receio de sofrerem represálias sociais.

Curioso é, no entanto, que alguns dos adjectivos deste nome são os mesmos adjectivos que caracterizam a procura de trabalho: i) ser devoto: colocar energia, autodisciplina e tempo de vida a enviar candidaturas espontâneas e a responder a ofertas de emprego; 2) ser contemplativo: ponderar sobre a própria experiência de vida pessoal e laboral, e extrair a essência do que caracteriza o trabalhador que se desenvolve dentro de nós para criar um currículo apelativo; 3) misteriosa, porque nunca se sabe se haverá uma resposta ao currículo ou à entrevista; e quiçá 4) alegórica, para aqueles casos em que as entrevistas revelam requisitos obscuros que não constavam no anúncio.

Crescemos a ouvir conotações negativas relacionadas com o estar desempregado e o desemprego. É o bicho papão e à que evitá-lo a todo o custo. Ao ponto de, quando os vemos cara a cara com ele, pomo-nos a nós próprios na margem da sociedade, rotulamo-nos como mais um que vive à custa de alguém (independentemente de ajudarmos esse alguém em troca), porque pensamos como a sociedade, porque não estamos habituados a pensar para além da multidão. É quando há uma necessidade de parar, se não queremos perder a mente num vórtice de pensamentos negativos e inúteis. Mas ninguém nos diz isso; na verdade, a sociedade anda cada vez mais depressa e sentimo-nos na obrigação de andar ao mesmo ritmo. Tretas.

Pois eu digo: na lista de tarefas que cada um faz enquanto procura trabalho, devíamos incluir a aprendizagem de técnicas de relaxamento (eu, por exemplo, escolhi a meditação), porque é necessário largar pensamentos como “devia estar a trabalhar”. Porque, mais tarde ou mais cedo, duvida-se sobre a capacidade de trabalhar, sobre o que se consegue fazer ou o que se consegue aguentar física e psicologicamente em prol de um bom (ambiente de) trabalho. Duvida-se sobre a própria capacidade de sobrevivência e de ser independente. Chega-se a um ponto em que o sentimento dominante é a inutilidade, independentemente de se ter formação ou não.

Ironicamente, vejo a necessidade de despertar o místico em nós e afastar da vida mundana para ponderar e aceitar o desagradável presente; para, pouco a pouco, ter a capacidade de saborear os momentos espontâneos de alegria e satisfação; para reflectir verdadeiramente sobre nós mesmos, sobre o que realmente queremos como vida pessoal e profissional, e ir à luta.

Perante estes meus pensamentos, talvez não fosse descabido de todo propor um novo significado ao Infopédia. Místico, parece-me, pode muito bem ser aquele que aceita conhecer-se a si próprio, na margem da sociedade, enquanto procura trabalho.

 

Reflectindo... Místico

Esta reflexão foi inspirada pelo tema diário Mystical do website The Daily Post.

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