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Levar a vida a preto-e-branco é imitarmos a própria Natureza: significa sermos frios e implacáveis. Mas acredito que essa é a chave para conseguirmos viver nesta sociedade, que alimenta o excesso e o desumano. Por isso, porque hei-de partilhar os meus talentos? Dou a mão e logo tentam tirar-me o braço. Prefiro ficar com a mão, obrigado. A ignorância é o que me deixa viver em paz e livre para refletir nas minhas próprias ações, que devo admitir, não sem uma certa ironia, que não são brancas, nem são pretas.

Estou na cozinha a jantar, tendo como única companhia o noticiário em direto no local de um acidente: um choque em cadeia numa ponte, que deixou um veículo à beira do precipicio. Os bombeiros correm de um lado para o outro e helicópteros sobrevoam o local com ávidos jornalistas. Aumento o som da televisão.

Recebi agora a informação de que se trata de uma família! São um casal e uma criança pequena que se encontram na beira do abismo! – Baixo rapidamente o volume de imediato; não preciso do dramatismo jornalístico.

A carrinha escorrega para a frente e sinto o meu próprio coração a ficar preso na garganta, juntamente com os gritos aflitos da multidão que entretanto se reuniu. Era óbvio que qualquer movimento levaria o veiculo a dar o mergulho fatal.

Numa rebeldia cuja origem desconheço, a minha ação contradiz a minha convicção de que uma vida a preto-e-branco deveria ser o meu lema de vida, porque a intenção surge dentro de mim e com a toda naturalidade uso o que tenho, a minha capacidade de afectar o movimento dos objetos. Eu, que sofri a humilhação, maus tratos e desamor por não ter um botão de ligar e desligar consoante a vontade alheia, simplesmente seguro na carrinha. Tão simples assim: imagino-me a segurá-la e seguro-a. O efeito também é imediato no meu corpo, que se contrai com o esforço súbito. Obrigo-me a focar na respiração e peço ao meu estômago contraído para não vomitar o jantar. Segurar coisas pesadas nunca foi bem a minha cena.

Parece estar a haver movimento dentro da carrinha. Consegues aproximar-te? – Perguntou o jornalista ao piloto e a imagem aproximou-se um pouco mais. Agora eram perceptiveis duas pessoas: uma ao volante quieta e a do pendura a virar-se par atrás. Depois desapareceu. – Parece que a família vai tentar a sorte e sair do veículo. Não podem fazer quaisquer movimentos bruscos ou os bombeiros não terão hipótese de socorrê-los. – O drama das palavras proferidas fica no ar e nesses segundos, ouve-se apenas o som das pás do helicóptero. A seguir, ouve-se o jornalisma a inspirar com força. – É incrível! Abriram agora a porta lateral de trás! A carrinha está a aguentar-se! É a mãe com a criança! É possível ver agora o homem a sair atrás do volante. Será que a carrinha aguentará até ele sair?

Despacha-te, homem, que estou a suar como se estivesse a correr uma maratona em pleno meio-dia com 30º graus de calor!

Não acredito! Senhores espectadores, é incrível! A família está em segurança! – A imagem focou-se no homem que coxeava para longe do carro.

 Bastou-me querer largá-lo. O alívio foi imediato e o som do mergulho preenche a cozinha. A multidão aplaúde, enquanto bombeiros e socorristas correm até à família. Permito-me sorrir. Sei que aquelas pessoas agradecem o milagre que tinham acabado de presenciar e aceito isso como um “Obrigado!”. Depois, arrepiei-me.

– Deus, se existes, livra-me de saberem quem sou.

Conto inspirado pelo tema diário Gray do website The Daily Post.

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