Lacunas – Notas de um Médico

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É com uma grande consternação que eu, Doutor Chóvenok, obviamente não o meu nome verdadeiro, a quatro de Junho do dois mil e dezoito, vejo a necessidade de exprimir os meus pensamentos numa mera folha de papel. O estado inquieto em que a minha mente se encontra perante as atuais adversidades deixa-me preocupado e com a necessidade de correr o risco de terceiros lerem e conhecerem a confusão mental em que me encontro. Inconcebível, mas verdadeiro.

Como médico doutor que sou, observo com incredibilidade esta nova epidemia composta aparentemente por um sintoma apenas, até à data, e que já nomearam como a Doença das Lacunas.

Fisicamente, os pacientes queixam-se de concavidades de profundidades várias, onde a pele adquire uma tonalidade negra, que fez toda a gente pensar, inicialmente, incluindo eu próprio, que era uma nova e mortífera versão da Peste Negra. Contudo, e este é o sintoma mais inacreditável para a minha pessoa, não apresentam quaisquer dores ou outras maleitas associadas única e exclusivamente ao aparecimento destas, à falta de melhor termo médico, Lacunas.

Surgem todos os dias novos pacientes e eis outro facto que me deixa intrigado: são ricos, são pobres, são funcionários, são patrões, são filhos e filhas, são pais e mães, são novos e velhos. São administrativos, são costureiras, são engenheiros, são chefes de cozinha, são bibliotecários e até médicos das mais variadas especialidades. Não parece haver um intervalo de idades precisa. Não parece estar associada a uma profissão especifica. Inacreditável, mas verdadeiro.

Os termos usados commumente para estudar uma nova epidemia não parecem ser aplicáveis a esta nova patologia e se eu encontro-me confuso, apenas posso presumir que os respetivos peritos se encontrem que nem baratas tontas a tentar compreender o que se passa. Neste momento, até lhes tenho pena. Ninguém merece que a Natureza nos tire o tapete debaixo dos pés, quando a capacidade de compreendê-la é limitada.

Curiosíssimo e determinado em compreender o que se passa, igualmente para pôr um limite às consultas desenfreadas e histéricas que têm dominado o meu consultório, autodisciplinei-me para encontrar a cura ou, pelo menos, a derradeira compreensão que me direccione para uma cura.

Com o intuito de encontrar factos comuns entre os mais variados pacientes, elaborei e iniciei um exaustivo interrogatório a cada paciente que se apresentasse com uma Lacuna. Para além das informações habituais – nome, idade, profissão, doenças de família – extendi as minhas questões ao ambiente profissional, familiar e social. Complementei cada caso com as minhas próprias anotações sobre o comportamento humano que testemunhei nas minhas consultas, já que reúno conhecimentos e experiência satisfatórios para avaliar o tipo de pessoa que se encontra à minha frente.

Ainda que se trate de uma investigação com uma base de dados extensa, dúvido que o meu estudo, iniciado há pouco mais do que três meses, termine brevemente, tendo em conta a afluência ao meu e outros consultórios. Estou em conversas com outros médicos, naturalmente mais confusos do que eu, e que à falta de melhor ação, têm concordado e aplicado o meu modelo de questões aos seus próprios pacientes. Contudo, às suas observações profissionais considero-as apenas meramente informativas e nunca de fonte totalmente fiável.

Eis então as minhas observações.

Na sua maioria, na ordem de 80% dos casos, os pacientes apresentam Lacunas no tronco, mais especificamente na região do peito e na parte de cima das costas, pelo que considero racional dedicar esta reflexão inicial a esta condição específica.

As profundidades medidas variaram entre 5 milímetros e seis centímentos, sendo este último proveninente de dois casos raríssimos, se é que posso afirmá-lo nesta fase, mas são dois num universo de três mil e quinhentos e setenta e dois pacientes até à data de ontem, em que a concavidade afunilava-se pelo corpo humano adentro. Os referidos pacientes concordaram em realizar exames médicos exausticos, desde radiografias, ecografias, ressonâncias magnéticas e biópsias, sob a observação da minha pessoa, e é com frustração que afirmo que nada se pode concluir senão que se tratavam de indíviduos em perfeitas condições físicas, mantendo-se por isso misteriosa a formação destas Lacunas.

Perante semelhantes resultados, vi-me obrigado a incluir o campo da psicologia na minha pesquisa, a única área especializada que admito perante ninguém que não domino. Naturalmente, dediquei-me à leitura de extensos livros sobre o comportamento humano e patologias da mente, mas o cruzamento dessa informação com as respostas obtidas nos questionários não permitiu ainda obter quaisquer reflexões conclusivas e úteis.

Mas em paralelo, cruzei os dados sobre o histórico familar com a variabilidade da profundidade das Lacunas, e eis que, por fim, consegui obter um deslumbre de alguma, senão ínfima compreensão. Assusta-me e admito-o perante ninguém, mas se a minha observação estiver correcta, estaremos sobre um problema muito maior e de uma complexidade que não sei se o Homem, eu inclusivé, estará capacitado para o resolver, pois verifiquei que todos os pacientes, mais ainda nos casos excepcionais referidos anteriormente, tinham algum grau de falta de afecto nas suas vidas, a nível famíliar, quer por parte dos pais, quer dos cônjugues. Observei ainda uma possível relação directa entre a severidade destes problemas e a profundidade das Lacunas.

No caso específico dos dois indíviduos de Lacunas de profundidade afunilada, são duas pessoas provenientes de uma família desfeita e/ou morta nos primeiros anos das suas vidas e que continuaram por décadas e até à data, não amados e/ou marginalizados a nível familiar e social. Portanto, uma circunstância familiar deveras grave que coloca em questão o crescimento de um adulto saudável e exemplar para as nossas gerações futuras.

Aos casos mais leves – sendo o termo relativo, pois tudo o que envolve emoções humanas é sempre de uma proporção inimaginável – associei as Lacunas de profundidades mais pequenas a problemas recentes como o térmito de uma relação amorosa de adolescentes ou a morte de um parente familiar querido.

Mais uma vez admito perante ninguém que esta perspectiva assusta-me. As relações humanas são delicadas e sensíveis, e traumas ao nível emocional enchem consultórios dos psicólogos diariamente e levam anos a ultrapassar, se é que chegam a ultrapassá-los. Contudo, se a tendência observada por mim se verificar correcta, as Lacunas têm a potencialidade de nos indicar pistas sobre a origem destes traumas e, assim, iniciar o tratamento adequado com maior brevidade do que se verifica actualmente, a nível da psicologia.

Continuarei a analisar os resultados dos inquéritos, meus próprios e aqueles que me são enviados, e dado o volume de dados que continua a chegar às mãos da minha pessoa semanalmente, estou convicto de que chegarei a uma conclusão definitiva e útil para resolução desta epidemia.

 

Notas

[1] Definição de Lacuna, segundo o dicionário:

  1. Espaço vazio; interrupção; vão;
  2. Omissão;
  3. Enfraquecimento intelectual;
  4. Interrupção deliberada ou involuntária num texto;
  5. Cavidade intercelular nos tecidos dos organismos;
  6. Posição atómica numa rede cristalina, não ocupada por um átomo.

[2] Nota de observação pessoal: Concavidade de fundo negro que surge face à falta de algum elemento essencial ao estado emocional de um indíviduo.

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