Cada Leitura, Um Novo Crescimento

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Poderia escrever: “O céu tinha um bonito tom de azul, mas havia nuvens no horizonte”. No entanto, se partilhar que “o dia estava solarengo e profetizava um dia sossegado, mas havia um glomerado de nuvens que pareciam formar uma neblina no céu, neblina essa que esbatia a linha do horizonte, criando a ilusão que mar e céu eram um só”, a experiência é totalmente diferente.

“A Writer’s Guide to Active Setting” de Mary Buckham reabriu-me os olhos para o poder que a descrição do setting pode ter sobre as minhas histórias. Mary Buckham apresenta imensos exemplos para fazer valer o seu ponto de vista, exemplos esses que mostram como podemos usar o setting para aprofundar o tema, mostrar o estado de espírito da personagem, ou mesmo o seu background (entre outros) ou tudo isto em simultâneo. O objectivo será alcançar não uma boa história, mas uma história extraordinária. É uma leitura que vale definitivamente a pena.

Foi este mesmo livro que motivou-me a reflectir e chegar à seguinte conclusão: o meu conto Escolher-se Ser está, de longe, tão bom como pode realmente estar. E renasceu o desejo de aprender, desta vez de forma prática, sobre como usar o setting para enaltecer o meu conto.

A versão que publiquei do Escolher-se Ser neste blog não foi nem o primeiro, nem o segundo rascunho do conto. Se foi a terceira ou quarta versão, também já não me recordo, mas o que pretendo realçar é que não me limitei a escrever o conto e a publicá-lo no blog. Dediquei muitas horas a relê-lo e a editá-lo, e fico triste por constatar que, afinal, está longe de ser a versão final como tinha pensado. Contudo, tenho o poder de aceitar, e aceito, que posso melhorar e só a perspectiva do que posso vir a escrever, sabendo que escreverei melhor, dá-me um arrepio de antecipação. Por isso, vamos lá a isto!

Não sei justificar ou informar o objetivo de partilhar a evolução do meu conto contigo, meu leitor. Sinto que é importante, tanto para mim, que será um registo da minha própria evolução, como para ti, o escritor que deseja aprender mais, quer que lhe mostrem como e encontrou um exemplo prático para ler. Também não sei se mostrar o antes e depois do conto inteiro será relevante; será algo que irei reflectir em tempo oportuno. Mas pelo menos as alterações do primeiro capítulo serão partilhadas.

Se forma resumida, o meu conto revela uma personagem, Caleb, que tenta fugir da realidade do ressurgimento do cancro, focando-se em ajudar uma sereia, a Ariana, que autolimita-se a sua vida a uma ilha, caindo numa existência triste, melancólica e sem esperança, ao mesmo tempo que um homem envelhecido pela dor da morte da sua família, regressa à ilha à procura de vingança contra a sereia, entrando em conflito com Caleb por não querer caçá-la também.

A ideia foi convergir três personagens com problemas muito específicos e potenciar a autorreflexão de que as nossas acções alimentam quem somos, e quem somos alimentam certas e determinadas acções; e mostrar que é a vontade consciente de mudar que irá quebrar esse padrão numa direcção mais positiva, de cura e de bem-estar. Também quis explorar a natureza dos boatos, como distorcem a realidade e criam dúvidas sobre o que será verdade e o que o que as pessoas querem que seja verdade. A nível mais técnico, usei este conto para aprofundar o uso de acções e diálogo para revelar a personalidade ou o estado de espírito das personagens. Obrigou-me a pesquisar mais sobre a linguagem do corpo humano, tiques e acções específicas para certas emoções, sobre a doença que escolhi para uma das personagens e o que isso acarretava no seu passado, presente e futuro, e outras coisas mais. Podes sempre dar o teu feedback sobre se consegui ou não incorporar estes objetivos no conto; será muito bem-vindo e a tua crítica construtiva será preciosa!

Com a leitura do livro “A Writer’s Guide to Active Setting” de Mary Buckham, apercebi-me que umas das lacunas que o conto tem é que podia, na forma como está escrito, acontecer em qualquer lugar. Eu só descrevi os lugares, porque as personagens tinham que aparecer em algum lugar. Isso, parecendo que não, levou à segunda lacuna: a cultura daquela ilha e o modo de ser e agir dos seus habitantes não foram devidamente desenvolvidas, o que para este conto em particular é relevante. A terceira lacuna é a realidade ilógica de que apenas uma das personagens principais podia ver a outra, enquanto mais nenhuma outra podia. Eu queria que a personagem Caleb tivesse de facto uma relação especial com a personagem Ariana, a sereia, mas mesmo para um conto de fantasia, isso cria uma mancha de frustração, porque não há um porquê lógico.

Pensei para comigo mesma: “Muito bem… Tens aqui três aspectos que podes usar para criar níveis mais profundos e detalhados no conto, tornando-o mais rico para o leitor”. Qual não é o meu espanto que, ao encontrar a solução para a última lacuna, fui naturalmente guiada para solucionar as outras lacunas. Vou então descortinar o meu raciocínio.

Comecei por encontrar um facto lógico (mas não necessariamente real) para justificar porque é que a personagem Caleb era a única que via a personagem Ariana, a sereia. Surgiu-me a seguinte ideia: só quem não estava interessado na sereia é que podia vê-la. No conto, existe a lenda que a sereia foi amaldiçoada por Poseidon, por isso a minha ideia podia encaixar como um dos sintomas da maldição. Melhor ainda: se só quem não tivesse interesse (por desinteresse ou por ignorância) podia vê-la, terá havido alguns habitantes da ilha que a viram, que terão partilhado que a viram, que terão criado interesse noutros habitantes, impedindo que estes conseguissem efetivamente vê-la. Parecendo que não, isto cria tensão e divide a população entre aqueles que vêm a sereia; aqueles que nunca a viram, mas acreditam; e aqueles que nunca a viram e não acreditam na sua existência, menosprezando aqueles que acreditam, mas todos usando a lenda da sereia para atrair turistas e lucros. Estes, ao usarem a lenda para vender os seus produtos, a ilha passou a ser conhecida como a Ilha da Sereia, que atraiu mais turistas, que promoveu o desenvolvimento local, que por sua vez promoveu o trabalho laboral, que impediu a desertificação da ilha. Com o passar dos anos, muitos dos comerciantes inventarvam histórias sobre a sereia ao ponto da verdade se tornar distorcida e difícil de detectar no rol de mentiras e boatos.

E voilá! Agora tenho um setting que simplesmente não pode ser removido da história, porque a história já não poderia ocorrer em mais lado nenhum. Caleb não poderia encontrar Ariana, a sereia, noutra parte do mundo, porque ela não queria partir, e agora não poderia encontrá-la numa ilha qualquer, porque só naquela é que se podia encontrar toda uma população e cultura que se desenvolveram em redor da sereia.

A reflexão cuidada e aprofundada do Escolher-se Ser promovida pela leitura do livro “A Writer’s Guide to Active Setting” de Mary Buckham, como exemplo prático de como este livro pode e será útil para nós, Escritores, para além do prazer que senti e da aprendizagem que adquiri durante o tempo demorei a devorar este livro (não foi muito!), leva-me a recomendá-lo a qualquer escritor minimamente interessado em desenvolver e aprofundar os seus textos. É uma daquelas obras intemporais que se tem na “prateleira das ferramentas” para consultar de tempos a tempos.

Espero que tenhas gostado do meu review e convido-te a deixares um comentário. Admito que não é algo que faça habitualmente, mas foi tal o impacto positivo que senti que escrever este artigo foi simplesmente um ato natural.

Em breve, atualizarei este artigo com o link para o capítulo revisto do conto Escolher-se Ser.

 

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