Retratos de Morte

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Anoitecia.

Cada vez mais gente rondava as ruas à procura de um restaurante para jantar apesar do frio que já se fazia sentir. Ainda com as memórias frescas do Verão, apertavam os casacos contra si e mantinham um sorriso bem humorado nos lábios.

Mas seria uma questão de tempo até os turistas começarem a partir para ares mais quentes e os locais regressarem à rotina habitual e mais sossegada. Para a Artista, esgotada de uma época turística que começou mais cedo do que o habitual, aquela noite seria a última.

Instalou-se no seu canto habitual, por baixo de um candeeiro público, ignorando o interesse alheio pelo seu cabelo branco e entraçado até ao fundo das costas. Preparou duas cadeiras, o cavalete, os lápis e as tintas. Colocou uma máscara de rosto ao estilo italiano de tons pretos e brancos que enalteciam o seu olhar azul. Por último, tirou uma pequena placa e encostou-a contra a mala dos materiais.

A placa – uma simples folha de papel plastificada – dizia “Pintam-se Retratos de Morte”. Era suficientemente horrível não só para chamar a atenção, mas também para agarrar o interesse. Era como se a Artista e as suas obras fossem um acidente com vítimas mortais e os turistas fossem daqueles condutores que abrandam para ver e satisfazer a curiosidade mórbida.

Por um lado, as noites em que conseguia trabalhar ali eram as únicas em que se permitia fingir ser apenas uma pessoa com uma imaginação muito ativa. Mas por outro, a visão macabra de corpos mutilados, feridos ou simplesmente velhos, o preço do conhecimento precose da morte dos outros, uma capacidade que desde cedo aprendeu a amaldiçoar, dava-lhe voltas ao estômago e pesadelos constantes. Mas precisava do dinheiro e a curiosidade mórbida vendia-se bem.

O primeiro cliente daquele dia, que viria a persegui-la durante uns tempos, pois havia destinos que a afetavam particularmente, era uma mulher jovem e segura de si mesma e na casa dos trinta anos. Trocaram uma breve conversa e a Artista fez-lhe sinal para se sentar na outra cadeira.

– Porque não fazes a mesma pose como quando arrasas no tribunal? – Sugeriu a amiga de cabelo encaracolado, que acampanhava a mulher.

– Boa ideia! – A cliente afastou um pouco os pés, endireitou os ombros, segurou uma caneta com as duas mãos como se brincasse com o objecto, e olhou ligeiramente de lado e para baixo para um reú imaginário. A Artista não conseguiu deixar de sorrir perante a energia forte que vibrava daquela personagem e pegou no lápis para iniciar o esboço.

Desenhou a pose que via, mas a expressão era de alguém amedrontado. Imaginou-a em trabalho e deu-lhe uma saia que lhe ficava pelos joelhos e uma blusa branca de mangas arregaçadas que mostravam pele suficiente para aplicar a morte que vira na advogada. Interrogou-se que tipo de advogada seria ela e o que é que defendia. Largou o lápis e pegou automaticamente no pincel, enquanto escolhia as tintas.

As cores a aguarela no retrato a preto-e-branco enalteceram o olho negro, o lábio cortado e inchado, as marcas de asfixia em redor do pescoço, as nódoas negras nos braços e nas pernas e, por último, as correntes ensanguentadas nos pulsos e tornozelos feridos.  Ao invés de uma caneta, segurava uma corrente ensanguentada.

A amiga observou o avanço do retrato com uma expressão preocupada.

– Hum… A senhora… Como é que decide o que pintar?

– Desenho apenas a primeira coisa que me vem à cabeça. – E encolheu um dos ombros, fingindo pouca importância. A amiga nada mais acrescentou.

– Então, está a ficar bem? – Perguntou a advogada.

– Está assustadora. – Foi a resposta sincera, o que pareceu agradar à outra, que fez um sorriso ainda maior. Contudo, a Artista apercebeu-se do brilho do medo no olhar da advogada ao ver o desenho terminado e reconheceu o sorriso falso nela ao agradecer-lhe o trabalho.

– Pareces uma das tuas raparigas. – Comentou logo a amiga, enquanto se afastavam. Com um nó na garganta, a Artista olhou para elas. – É demasiada coincidência!

– Oh, é só um desenho! – Exclamou a advogada com uma vivacidade forçada. – Estamos de férias, solteiras e a viajar juntas. O que é que pode correr mal?!

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