O Astronauta Perdido

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Capa samuel Silva

Montagem por 67_s_nous #artistname #instagram

 

As vibrações foram fortes e sacudiram-no e à nave violentamente. O Astronauta agarrou-se ao banco e cerrou os dentes. Esperava explodir a qualquer momento e, quando o movimento cessou, clamou vitória. Desapertou o cinto e de imediato levitou. Dirigiu-se para o pequeno painel de instrumentos com as mãos a tremer de entusiasmo. O sinal estático do rádio encheu a cabine. Após alguns minutos, a estática diminuiu e ouviu com sucesso a equipa da Terra, que explodiu em palmas e exclamações animadas. O Astronauta entregou-se também à ovação. Mas foi um momento célere. Iniciou o relatório oral do que experienciou desde o lançamento. Não tardaria a reentrar na atmosfera, pelo que aprontou-se a reportar os resultados das leituras da temperatura no interior e exterior da nave, e do sistema de suporte de vida. Não precisou de nenhum analista para chegar à conclusão que, não só o Homem podia ir ao Espaço, como era possível permanecer lá. Respirou fundo para acalmar o entusiasmo, mas também o nervosismo. Queria regressar, de preferência vivo. A voz do lado de lá desejou-lhe boa sorte e um “até já” tão animado que levou o Astronauta a imaginar uma aterragem bem sucedida e a ser recebido como o novo herói da Humanidade. Terminou as comunicações, posicionou-se na cadeira e apertou o cinto. Porém, ao fim de algum tempo, não havia quaisquer sinais de reentrada na atmosfera terrestre.

Ligou o rádio e, por entre a estática, uma outra voz soou no apertado compartimento. O tom indicava claramente problemas e era notório que, quem quer que fosse, viu-se obrigado a transmiti-las. Incrédulo, o Astronauta ouviu o homem expôr um engano nos cálculos que levou a nave a estar a uma altitude muito superior à estimada. Sem realmente compreender, ouviu a sentença: uma espera de cerca quatro dias, o tempo que levaria à nave para posicionar-se e reentrar na Terra por efeito da gravidade.

– Mas a água e a comida que tenho mal chegam para uma refeição!

– Lamento. – Exteriorizou a voz e prontamente o sinal foi interrompido. O Astronauta fitou a coluna de som, ligeiramente acima no seu lado esquerdo. Pena. Era a única coisa que lhe iriam oferecer. Não uma tentativa de o tirarem da órbita mais cedo. Pena.

Voltou a tentar estabelecer contacto. Carregou freneticamente nos botões e a estática encheu a nave. Todavia, não obteve qualquer resposta. Durante as horas seguintes, o Astronauta continuou a insistir para obter uma justificação. Sempre que o estômago roncava faminto, cerrava os dentes e, teimoso, adiava a minúscula refeição de que disponha. Resistiu até a nave mergulhar na escuridão com a Terra a posicionar-se entre ele e o Sol. Porém, a viagem pela noite só ia a meio, quando o Astronauta viu-se novamente faminto e sedento. O relógio, um ecrã de grandes números iluminados a verde, marcava sete horas após o lançamento. Sentiu-se gelado ao pensar nas noventa horas que faltavam. Sem comida ou água. Qual era a probabilidade de terem-se enganado outra vez nos cálculos? E a probabilidade de estarem certos?

O medo de nunca vir a sair dali com vida instalou-se. Gritou. Gritou dentro da pequena nave até as lágrimas e os soluços o reduzirem a um animal ferido a soltar gemidos lamentosos. Fungou e limpou o nariz muito depois da manga do fato ficar visivelmente húmida. Sabia que as suas respirações descontroladas significavam um consumo maior do pouco oxigénio disponível. Não quis saber. Amaldiçoou quem errou os cálculos até adormecer, ainda com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto.

Ao acordar, o Astronauta viu-se frente a frente com a Terra. Era uma vista deslumbrante, mas não encontrou motivos para se encantar. O estômago encolhia-se faminto, deixando uma sensação dolorosa, quase como uma queimadura, na barriga. Passava a língua pelos lábios secos num gesto involuntário e repetitivo de os manter húmidos. Em breve, constatou que surtia o efeito oposto à medida que os lábios secavam cada vez mais. Chupou a palhinha do reservatório de água com movimentos sôfregos e a tentativa valeu-lhe algumas, definitivamente as últimas gotas de água preciosas. Fechou os olhos ao sentir a frescura líquida e espalhou-a pelos lábios. Mas o alívio foi temporário.

Olhou em redor para a nave. Interrogou-se por quanto tempo iria conseguir respirar. Tinha sido desenhada para uma missão de horas, não de dias. O Astronauta respirou fundo algumas vezes. Não sentiu quaisquer dificuldades, pelo que deduziu que ainda tivesse tempo. Mas aguentá-lo-ia nos três dias que faltavam? Quereria ele que o aguentasse? Considerou irónico estar ali, mergulhado no Universo tão infinitamente vasto e, ao mesmo tempo, fechado num caixão metálico, enquanto debatia o que seria pior: morrer desidratado ou asfixiado. Quinze horas depois, puxava os cabelos, irritado.

Ninguém tentou comunicar com ele e a cada tentativa de contacto sua ignorada foi como espetarem-lhe uma farpa cada vez mais fundo nas suas costas. Confiou no projecto, ansiou por ele. Em troca, abandonaram-no. Massajou a zona do estômago, mas os movimentos não aliviaram a dor da fome e do nervosismo Não sabia quanto tempo levaria até morrer naquelas condições, mas havia pessoas que eram encontradas vivas após semanas sem água e comida. Ia conseguir, prometeu a si mesmo. Ia conseguir! Soltou-se do cinto e virou-se contra cadeira. Como um pugilista fraco, gritou em plenos pulmões e esmurrou-a com uma das mãos; a outra mantinha-o agarrado à cadeira para não flutuar. Esmurrou uma, duas, três vezes e à quarta a fraqueza subjugou-o ao ponto de ficar sem força. Soltou-se e deixou-se flutuar, encolhido numa posição semi-fetal. O corpo tremia de frio e medo. Lentamente, o Astronauta posicionou-se na cadeira e voltou a pôr o cinto. Ia provar a todos que não era simplesmente descartável, prometeu, exausto.

Mais resignado e muito mais tarde, o Astronauta permitiu-se admirar o planeta Terra. Estava por cima da Europa e ali, o céu apenas estava pintalgado com nuvens brancas. Olhou para o relógio. Marcava vinte e seis horas e nove minutos. Voltou a atenção para a Terra; desta vez observou o mar. Fechou os olhos e imaginou-se a nadar numa praia. Não foi difícil ou doloroso. O corpo já não dava sinais de fome e a mente tornara-se ágil a levá-lo para realidades alternativas. Quando se permitiu regressar ao presente, olhou para o relógio. Marcava vinte e seis horas e quinze minutos. Exalou frustradíssimo. Voltou a observar o mundo lá em baixo. Se não fosse o relógio, ia jurar que tinham passado horas. O que distinguia um segundo do outro, se o movimento ali era imperceptível?

Deu por si a acordar na face escondida da Terra. Não se mexeu, primeiro confuso com a escuridão, segundo assustado com a ilusão de ter sido enterrado vivo e terceiro desesperado, porque a ilusão era real. Restavam ainda alguns raios de luz de sol, no seu lado esquerdo, antes da Terra tapar-lhe a luz por completo. Choramingou e soluçou, mantendo o olhar fixo no planeta escurecido. Coçou a vista com movimentos lentos. Tinha-se vindo a aperceber do estado letárgico em que o seu corpo caíra. Sentia-se cansado como se tivesse corrido uma maratona no dia anterior. Há horas que não saia da mesma posição e não fez por sair nas horas seguintes. Voltou a coçar a vista seca e depois lançou um olhar cansado ao relógio: trinta e três horas e quarenta e um minutos.

Devolveu a atenção ao mundo enegrecido e pintalgado por pontos luminosos. Enquanto estava ali preso, o pai devia estar a trabalhar no velho Sedan KIM 10-50 de 1940, que mantinha na garagem há anos. Sempre preferiu trabalhá-lo à noite. Sentiu-se abatido com a possibilidade de não puder ajudá-lo, como prometera há tantos anos atrás. De não voltar e salvar as poucas amizades que ainda lhe restavam. De não puder aprender e fazer coisas novas. Ele nem sequer tinha uma lista de coisas a fazer antes de morrer. Estúpido, pensou com uma fungadela ruidosa. A vida que deixou para trás parecia-lhe agora tão insípida. Usou a manga para limpar o nariz e o movimento despoletou tonturas. Ainda bem que deixou-se ficar preso à cadeira ou flutuaria tão às voltas como a própria cabeça. Respirou devagar e as tonturas atenuaram.

Lembrou-se do treino; recordou-se da sua entrega total aos estudos, a conhecer o Espaço o melhor que podia, e dos raros momentos de camaradagem com aqueles que partilhavam do mesmo sonho de o conquistar, um dia. A determinação tinha sido motivada pela paixão e desejo de ser o melhor. Por momentos, acreditou estar ainda na sala a ouvir as instruções e os procedimentos que viria a aplicar. Quando se viu no presente, não se recordou de imediato onde estava. Franziu o sobrolho. Tornava-se cada vez mais confuso distinguir a realidade das memórias. O coração apertou-se-lhe no peito. De que serviu ter nascido, se o seu destino era morrer ali, sozinho no Espaço? Qual foi o sentido da sua vida? Apenas viveu o curso do programa espacial e, mais tarde, o programa de treinos para aquela missão.

Abanou a cabeça, parando assim que as tonturas reapareceram. Não se arrependia de ter escolhido ser astronauta. Tinha pena, claro, de não ter feito mais com a sua vida. Mas, se pudesse regressar ao passado, mudaria alguma coisa? Procurou por quaisquer sinais de arrependimento dentro de si e confirmou, por entre memórias confusas do que tinha feito com orgulho, que não. Não mudaria nada que pudesse afastá-lo do momento em que foi escolhido para ser enviado para o Espaço. Como podia, quando seguiu o seu sonho? Como podia, quando viveu o que mais desejava? Não dissera inúmeras vezes que concretizaria o seu sonho ou morreria a tentar? Bem, ali estava ele. Ali estava ele…

Suspirou fundo e deixou-se cair num estado de semi-consciência, convencido que dormitava. Sonhava após os breves momentos conscientes até que, pelas quarenta horas, o Astronauta mergulhou num sono mais profundo. Quando a estação terrestre tentou restabelecer as comunicações, oito horas depois, não obtiveram resposta. O Astronauta, mergulhado agora num coma e nos últimos vestígios de oxigénio da pequena nave, não tomou consciência de que a reentrada na atmosfera tinha voltado a falhar. Não soube que o seu corpo sem vida só viria a ser resgatado, secretamente, dois anos depois.

 

Nota da Escritora: Escrevi esta perspectiva tendo em mente uma das muitas teorias de conspiração: Teoria do Cosmonauta Perdido. Usei Korabl-Sputnik 1 (nome soviético) ou Sputnik 4 (nome americano) por ser um satélite com “maior probabilidade” de incluir um ser humano e assim criar um trabalho que deixasse o leitor tão indeciso quanto a teoria que o originou. Aos interessados, recomendo uma breve pesquisa sobre este assunto que, a quem decide acreditar, esconde uma realidade horrenda.

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